ESPECIAL 150 ANOS l DIÁRIO DE NOTÍCIAS DA MADEIRA

Ousadia e memórias, desafios e compromisso DIÁRIO DE NOTÍCIAS DA MADEIRA l ESPECIAL 150 ANOS l 11 DE OUTUBRO DE 2026

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ESPECIAL FICHA TÉCNICA 11 DE OUTUBRO DE 2026 l ESPECIAL 150 ANOS DIÁRIO DE NOTÍCIAS DA MADEIRA Direcção e coordenação: Ricardo Miguel Oliveira Textos: Andreia Correia, Andreia Dias Ferro, Carolina Rodrigues, Élvio Passos, Érica Franco, Francisco José Cardoso Inês Paiva, João Filipe Pestana, Jorge Freitas Sousa, Marco Livramento, Miguel Fernandes Luís, Nélio Gomes, Orlando Drumond, Orlando Vieira, Paula Henriques, Paulo Vieira Lopes, Pedro Freitas Oliveira, Ricardo Duarte Freitas, Roberto Ferreira, Rúben Santos, Sandra Rodrigues, Sandra S. Gonçalves, Sofia Carraca Teixeira, Tânia Cova e Victor Hugo. Fotografia: Arquivo e ASPRESS Design Gráfico: Eder Luís Comercial Direcção: Ricardo Silva Vendas: Isabel Reis, Marianna Pacífico, Rosa Faria e Susana Pimenta Produção: Ricardo Ferreira Impressão: VASP Editorial A admirável forma de pugnar por interesses colectivos ...............4 A equipa do ano 150 ............................................................................ 5 Mensagens Presidente da Assembleia enaltece contributo do DIÁRIO para a construção da Autonomia ...................................6 Presidente do Governo destaca o poder de (in)formar gerações..7 História A linha do tempo: de 1876 ao jornal multiplataforma ....................8 Da Ponte do Cidrão à Rua Fernão Ornelas ..................................... 18 Grandes momentos 40 manchetes icónicas ....................................................................20 15 capas evidenciam mudanças de estilo gráfico .......................30 Rubricas que dão identidade ...........................................................34 Reportagens memoráveis A luta contra o isolamento foi a força da Madeira profunda.......36 A testemunha dos momentos políticos marcantes.....................46 Volta à Europa com Marítimo e Nacional.......................................53 Terra de campeões .............................................................................60 Economia de superação e resiliência ..............................................66 Confronto com a força da natureza .................................................76 As visitas de figuras de grande relevo.............................................96 Viagem aos casos de justiça que abalaram a Região ................103 ‘Prata da casa’ Perfil dos Fundadores: jornalistas de combate...........................109 Oito vidas que fizeram o DIÁRIO.....................................................115 Opinião pública enriquecida com a liberdade de pensamento .....119 As cartas, a poderosa voz dos leitores ..........................................123 Testemunhos ....................................................................................128 Contributos A voz da ilha em momentos cruciais.............................................130 Motor de desenvolvimento .............................................................135 Quando informar também é intervir ..............................................140 Um verdadeiro promotor de eventos.............................................144 Influência As vidas que mudamos....................................................................146 O mundo que percorremos ..............................................................152 Transformação digital A odisseia já leva 27 anos ...............................................................158 As novas vagas..................................................................................160 Visão para o futuro Continuar no terreno ........................................................................164 Nenhuma marca sobrevive daquilo que foi ..................................167 Ser próximo sem ser complacente ................................................170 Mudar a forma sem perder a confiança ........................................172 Publicidade Como os anúncios e a publicidade mudaram ao longo do tempo ..........................................................176 Madeira em imagens 150 anos através de um olhar........................................................184

4 ||| ESPECIAL 150 ANOS l DIÁRIO Alguns jornais atravessam o tempo enquanto outros fazem parte de cada sublime momento da vida colectiva. O DIÁRIO nasceu a 11 de Outubro de 1876, numa Madeira muito diferente daquela que hoje conhecemos. Criar então um jornal diário numa ilha era mais do que um projecto editorial. Era uma aposta na informação, na participação destemida e na própria capacidade de uma comunidade se reconhecer nas suas páginas. A missão ficou bem definida desde o princípio: “Pugnar pelos interesses dos madeirenses”. E entretanto passaram 150 anos. Mudou a Madeira, Portugal e o Mundo. Mudaram as tecnologias, os hábitos, as formas de comunicar e até a maneira como cada um escolhe aquilo que quer saber. Mas há algo incontornável no processo comunicacional, a necessidade incessante de procurar a verdade, confrontar o poder, dar voz à comunidade, explicar o que acontece e guardar a memória do que fomos. É por isso que esta revista não se limita a ser uma viagem pela história do DIÁRIO. É, acima de tudo, um périplo pela realidade da Madeira. Nestas páginas surgem as grandes mudanças políticas, as conquistas da Autonomia, as crises e as transformações económicas, os desastres naturais, os feitos desportivos, as figuras que nos visitaram, as causas que mobilizaram a sociedade, as polémicas que dividiram opiniões e as histórias anónimas que, muitas vezes, dizem mais sobre uma terra do Ricardo Miguel Oliveira rmoliveira@dnoticias.pt Director Geral Editorial da EDN e Director do DIÁRIO Chegar aos 150 anos é a prova inequívoca de que algumas ousadias, quando encontram uma soberana razão que robustece as origens, conseguem atravessar gerações que qualquer discurso oficial. Estão também as pessoas que fizeram este jornal e hoje estão em festa: jornalistas, fotógrafos, tipógrafos, administrativos, colaboradores, colunistas. E estão os leitores. Porque um jornal só existe verdadeiramente quando alguém o lê, acredita que vale a pena tê-lo como cúmplice e o integra na sua vida. O DIÁRIO não escreveu apenas sobre a Madeira. Foi, sobretudo, a Região genuína e diversa que ficou espelhada neste jornal. E essa é talvez a melhor forma de medir estes 150 anos. Não pelo número de páginas publicadas, pelas máquinas que foram substituídas, pelas instalações que mudaram ou pelas tecnologias que entretanto chegaram. Mas pelas histórias que ajudámos a contar, pelas perguntas que colocámos, pelos debates que provocámos, pelas causas que acompanhámos e pelas pessoas que encontraram nestas páginas uma resposta, uma voz, uma companhia ou simplesmente um lugar para serem conhecidas, ou um palco privilegiado para quem faz acontecer. Mas uma história longa não é necessariamente uma missão acabada. A imprensa vive hoje uma das maiores transformações da sua existência. A informação chega antes de ser verificada. As redes sociais misturam notícia, opinião, propaganda e emoção. A inteligência artificial está a alterar a produção e a distribuição de conteúdos. A atenção tornou-se um recurso disputado ao segundo. E a credibilidade, geradora de confiança, que sempre foi o principal património de um jornal, tornou-se também uma das suas maiores responsabilidades. Neste novo mundo, um jornal não pode limitar-se a ser mais rápido. Tem de ser mais necessário. Necessário para distinguir factos de ruídos. Para confirmar aquilo que circula. Para explicar aquilo que parece incompreensível. Para questionar aquilo que todos repetem. Para acompanhar e incomodar o poder sem dele depender. Para estar próximo sem ser complacente. Para defender os interesses da Região sem deixar de olhar para além dela. A Madeira de 2026 já não é a de 1876. É mais aberta, mais ligada ao mundo, mais informada e também mais exposta às mudanças que acontecem muito para além da ilha. O jornal do futuro terá, por isso, de ser simultaneamente mais regional e mais universal. Mais próximo das pessoas e mais capaz de lhes explicar o mundo. Mais digital, sem perder a credibilidade construída no papel. Mais tecnológico, sem abdicar do julgamento humano. Capaz de usar a inteligência artificial sem entregar à máquina aquilo que só ao jornalismo compete decidir, aquilo que é relevante, verdadeiro e deve ser perguntado. É esse o desafio do tempo que temos pela frente, porventura, dos próximos 150 anos. Não repetir o passado, nem viver da saudade, mas aprender com todos quantos edificaram esta admirável forma de pugnar por interesses comuns. Esta revista regressa ao passado porque nenhuma instituição dura tanto tempo sem memória. Mas olha também para o futuro porque quem lida com o efémero dificilmente chega ao próximo século e meio sem capacidade de mudança. Em 1876, alguém acreditou que era possível fazer um diário todos os dias numa ilha. E aquela que parecia uma ousadia tornou-se uma apreciável história, um bem necessário e um aliado imprescindível. Agora, temos a redobrada responsabilidade que implica “pugnar” de novo para que todo este importante legado continue a fazer sentido. Os primeiros 150 anos pertencem à memória. Os próximos começam hoje. A admirável forma de pugnar por interesses colectivos Editorial

DIÁRIO l ESPECIAL 150 ANOS ||| 5 A EQUIPA DOS 150 ANOS Apesar de algumas ausências, porque nenhum dia é o ideal para uma boa fotografia de grupo, dado que há sempre folgas, baixas, férias e agenda para cumprir, o retrato que fica para a história a todos inclui, já que é feito de gente que, com extrema dedicação e excelência no desempenho, faz pelo melhor nos diversos departamentos da EDN. No Editorial, no Comercial, no Marketing e Eventos, no Técnico e no Administrativo e Financeiro todos contribuem com o seu saber e profissionalismo para o sucesso da Empresa do DIÁRIO de Notícias, instituição que conta actualmente com cerca de 60 funcionários e colaboradores, de olhos postos no futuro. FOTO RUI SILVA/ASPRESS

6 ||| ESPECIAL 150 ANOS l DIÁRIO Celebrar os 150 anos do Diário de Notícias da Madeira é celebrar uma instituição que faz parte da história da nossa Região. Ao longo de um século e meio, este jornal acompanhou os momentos mais marcantes da vida madeirense, testemunhou mudanças profundas, registou conquistas, dificuldades e esperanças, e ajudou a construir a memória coletiva de sucessivas gerações. Poucos órgãos de comunicação social podem afirmar que cresceram ao mesmo ritmo da sociedade que servem e que, durante este período, permanecem, como uma referência para quem procura compreender a realidade da Madeira. Uma comunicação social livre, plural e responsável é um dos pilares de qualquer sociedade democrática. O jornalismo não se limita a relatar acontecimentos; ajuda-nos a compreender o mundo, promove o debate de ideias, fiscaliza o exercício do poder e aproxima os cidadãos das instituições. Numa época em que a informação circula a uma velocidade alucinante, em que a desinformação se propaga com facilidade, onde a polarização crescente do uso e abuso de discursos, por vezes, populistas, onde os cidadãos tendem a refugiar-se em bolhas mediáticos e circuitos fechados e as pessoas tendencialmente desconfiam das Instituições Públicas e Políticas - o rigor, a credibilidade e a independência do jornalismo profissional tornam-se mais importantes do que nunca. Se o Diário de Notícias chega hoje aos 150 anos, isso deve-se, em grande medida, à sua capacidade de adaptar-se às mudanças tecnológicas, de reinventar modelos de trabalho, de responder à transformação dos hábitos de leitura e enfrentar as dificuldades que têm afetado a imprensa escrita em todo o mundo. Num contexto em que as plataformas digitais alteraram profundamente a forma como consumimos notícias, em que as redes sociais passaram a disputar a atenção dos leitores e em que a sustentabilidade financeira dos meios de comunicação continua a ser um enorme desafio, o Diário tem superado sem perder a Rubina Leal Presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira sua identidade e essa capacidade de adaptação merece ser reconhecida. Mas os jornais são, acima de tudo, feitos de pessoas. Esta é também uma homenagem aos jornalistas que percorreram a Madeira para contar as suas histórias, aos correspondentes que mantiveram viva a ligação às comunidades, aos fotógrafos que eternizaram momentos únicos, aos revisores, gráficos, técnicos e a todos os colaboradores e diretores que durante os seus 150 anos, contribuíram para fazer do Diário de Notícias da Madeira um património de todos os madeirenses. O seu trabalho diário permitiu que milhares de páginas se transformassem num verdadeiro arquivo da nossa história coletiva. A coincidência entre os 150 anos do Diário de Notícias e os 50 anos da Autonomia da Região Autónoma da Madeira reveste-se de um simbolismo muito especial. O processo autonómico representa uma das maiores conquistas políticas do povo madeirense, e o Diário esteve presente em todas as suas etapas. Acompanhou o debate público, deu voz às diferentes correntes de pensamento, traduziu as mudanças institucionais e registou a evolução de uma Região que conquistou a capacidade de decidir o seu próprio destino. Esse contributo foi essencial para aproximar os cidadãos da construção da Autonomia e para preservar a memória de um período decisivo da nossa história. Também a atividade parlamentar tem encontrado no Diário de Notícias um acompanhamento atento e permanente. Ao longo de décadas, o jornal deu a conhecer aos madeirenses o trabalho desenvolvido na Assembleia Legislativa, acompanhando os debates, as iniciativas legislativas e as decisões que marcaram a evolução da Região. Essa cobertura constitui um importante serviço público, porque aproxima o Parlamento dos cidadãos, reforça a transparência da vida democrática e ajuda a compreender o impacto das decisões políticas no quotidiano das pessoas. Durante estes 150 anos, o Diário de Notícias da Madeira foi muito mais do que um jornal. Foi testemunha da nossa história, espaço de debate, veículo de proximidade entre a Madeira e a sua diáspora e um dos principais guardiões da memória coletiva da Região. Em nome da Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira, felicito o Diário de Notícias da Madeira por esta notável efeméride. Que continue a olhar para o futuro com a mesma capacidade de inovar que demonstrou nestes 150 anos, sem abdicar dos valores que fazem do jornalismo uma das mais nobres expressões da liberdade e da democracia. Contributo essencial para a construção da Autonomia Mensagens

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8 ||| ESPECIAL 150 ANOS l DIÁRIO ODIÁRIO completa neste 11 de Outubro 150 anos de publicação. Um século e meio durante o qual mudou quase tudo à sua volta e muito dentro das suas próprias paredes. Mudaram os regimes políticos, a sociedade madeirense, as comunicações, as profissões e os hábitos dos leitores. Mudou o próprio conceito de distância. Mudaram também as páginas, as máquinas, as oficinas e as redacções. O jornal nasceu no tempo da composição manual e da impressão tipográfica. Passou pelo chumbo, pelas rotativas, pelo offset, pela cor e pela paginação electrónica. Depois saiu dos limites físicos do papel, entrou na Internet, transformou a edição impressa em e-paper e passou a produzir informação para computadores, telemóveis, redes sociais, áudio e vídeo. Esta é a história dessa transformação. De 1876 ao jornal multiplataforma Roberto Ferreira rferreira@dnoticias.pt 1876 11 DE OUTUBRO Nasce o Diário de Notícias É publicado no Funchal o primeiro número do Diário de Notícias, fundado pelo cónego Alfredo César de Oliveira. Criar um diário numa pequena sociedade insular do final do século XIX, marcada por níveis elevados de analfabetismo e por limitações económicas e de comunicação, constituía uma iniciativa de grande audácia. Alfredo César de Oliveira possuía já experiência na imprensa periódica madeirense e era conhecido como homem de cultura e jornalista de combate. Mas para o novo jornal concebeu uma orientação essencialmente noticiosa. O propósito era reunir um número significativo de acontecimentos, interessar diferentes sectores sociais e discutir simultaneamente os problemas da Madeira. Nascia uma característica que atravessaria toda a história do título: informar sobre a Região e participar no debate sobre o seu futuro. O JORNAL COMO OBJECTO Letras, tinta e papel O DIÁRIO nasce muito antes da rádio, da televisão e, naturalmente, da Internet. Produzir uma edição significava transformar fisicamente palavras em impressão. Caracteres tipográficos eram compostos, alinhados e preparados para que a tinta pudesse depois ser transferida para o papel. As primeiras edições apresentam aquilo que durante Uma linha do tempo de século e meio de notícias, papel, máquinas e transformação décadas caracterizaria a imprensa: páginas de grande dimensão, colunas estreitas, enorme densidade de texto e escassa componente visual. A fotografia ainda estava muito longe de ocupar o espaço que hoje detém. O primeiro DIÁRIO era, essencialmente, um objecto feito de palavras. 1884 25 DE NOVEMBRO A Madeira como causa Uma edição de Novembro de 1884 mostra já o DIÁRIO a intervir directamente numa matéria considerada relevante para os interesses da Madeira. O jornal apela aos representantes madeirenses nas Cortes para que sejam eliminados encargos que penalizavam a actividade insular. O episódio ajuda a revelar algo mais importante do que o acontecimento isolado: desde cedo, o título entende que a sua função não se esgota no relato dos factos. Noticiar e defender os interesses regionais podiam fazer parte do mesmo espaço editorial. A relação entre jornal e território começa assim a consolidar-se nos primeiros anos. FINAL DO SÉCULO XIX O DIÁRIO AFIRMA-SE Informação, intervenção e cultura À medida que se aproxima do final do século XIX, o DIÁRIO consolida a sua presença na sociedade madeirense. As páginas acompanham acontecimentos políticos, sociais, económicos e culturais, mas acolhem igualmente escritores, figuras públicas e matérias literárias. O jornal diário começa a desempenhar simultaneamente várias funções: contar o que acontece, discutir os problemas da ilha, divulgar cultura e estabelecer uma relação regular com o leitor. Essa capacidade de agregar diferentes interesses ajudará a explicar a sua longevidade. 1895 UMA PRIMEIRA PÁGINA DO FIM DO SÉCULO A consolidação do modelo tipográfico Os exemplares preservados de 1895 permitem observar como o DIÁRIO se apresentava quase vinte anos depois da fundação. O grande formato mantém-se. O texto ocupa praticamente toda a página e distribui-se em sucessivas colunas. A organização visual depende sobretudo de cabeçalhos, separadores e diferentes corpos tipográficos. A diferença para um jornal contemporâneo é evidente. Mas também se percebe uma continuidade: já existe uma tentativa clara de organizar diferentes assuntos e proporcionar ao leitor caminhos dentro da página. História

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10 ||| ESPECIAL 150 ANOS l DIÁRIO 1900 O DIÁRIO ENTRA NO NOVO SÉCULO Um jornal já com 24 anos Quando chega 1900, o DIÁRIO é já uma presença estabelecida na Madeira. As primeiras páginas conservam a matriz visual da época: grande quantidade de texto, colunas muito densas e presença de anúncios integrada no próprio desenho da publicação. É ainda o jornal do século XIX em muitos dos seus processos de fabrico, mas entra no século XX com uma base de leitores, uma identidade regional e uma rotina diária estabelecidas. 1909 1 DE OUTUBRO O maior DIÁRIO até então A 1 de Outubro de 1909 o jornal passa a apresentar-se no maior formato alcançado até essa altura. A dimensão física das páginas fazia parte da capacidade informativa de um jornal. Mais espaço significava mais colunas, mais informação e mais publicidade. Num mundo sem meios electrónicos de comunicação de massas, a página impressa era o principal suporte capaz de reunir, organizar e transportar diariamente grandes quantidades de informação. O DIÁRIO crescia também fisicamente. 1913 4 DE OUTUBRO Uma empresa para o jornal A propriedade passa para a Empresa do Diário de Notícias e Francisco da Conceição Rodrigues assume a direcção. A nova estrutura representa uma etapa de consolidação institucional do título. Quase quatro décadas depois da fundação, a continuidade do jornal deixava cada vez mais de depender apenas da iniciativa fundadora e passava a assentar numa organização empresarial preparada para assegurar diariamente redacção, administração, impressão e distribuição. 1916 DEZEMBRO A guerra chega ao Funchal A Primeira Guerra Mundial deixa de ser uma realidade distante quando o Funchal é bombardeado. As páginas do DIÁRIO passam a registar a guerra vivida na própria cidade. A cobertura constitui hoje um dos conjuntos documentais mais interessantes da história do jornal e permite perceber não apenas aquilo que aconteceu, mas também a maneira como o jornalismo do princípio do século XX relatava acontecimentos traumáticos. O tom era frequentemente opinativo e interventivo, bastante diferente da separação contemporânea entre notícia e comentário. 1917 NOVO BOMBARDEAMENTO O jornal como testemunha Um ano depois, o Funchal volta a ser atacado. Mais uma vez, o DIÁRIO converte o acontecimento em registo imediato e, um século depois, em documento histórico. É nestes momentos que a duração de um jornal adquire outro significado. A edição produzida para informar leitores num determinado dia pode transformar-se, décadas mais tarde, numa das principais fontes para conhecer esse mesmo dia. 1927 SETEMBRO Termina uma longa direcção Em Setembro de 1927 termina a direcção de Francisco da Conceição Rodrigues. Segue-se um curto período de transição editorial até Feliciano Soares assumir a liderança do jornal a partir de Outubro. A mudança abre uma etapa particularmente marcada pela dimensão cultural e literária. 1927 ‘NOTÍCIAS INFANTIL’ O DIÁRIO procura novos leitores No mesmo ano é lançado o suplemento quinzenal ‘Notícias Infantil’, coordenado por Laura de Castro Soares. A iniciativa constitui um exemplo precoce de segmentação editorial. O jornal principal continuava a dirigir-se ao conjunto dos leitores, mas começava a produzir conteúdos concebidos especificamente para outro público. Aquilo que no século XXI seria designado como diversificação de produtos tinha já manifestações muito anteriores no papel. 1927-1931 A LITERATURA GANHA ESPAÇO A marca de Feliciano Soares Durante a direcção de Feliciano Soares, o DIÁRIO assume uma orientação cultural e literária particularmente expressiva. O período recorda que a imprensa regional desempenhou durante décadas uma função que ultrapassava largamente a informação quotidiana. Jornais eram igualmente lugares de publicação, debate intelectual e divulgação literária. A página de notícias era também espaço cultural. 1931 31 DE MARÇO Começa a era Alberto de Araújo Alberto de Araújo assume a direcção do DIÁRIO. A sua permanência atravessará mais de quatro décadas e praticamente todo o Estado Novo. Sob a sua liderança são promovidas alterações e melhorias editoriais e gráficas. Poucas direcções na história do jornal abrangem mudanças políticas e sociais tão profundas. DÉCADAS DE 1930 E 1940 UM JORNAL NO ESTADO NOVO Publicar sob censura O DIÁRIO atravessa a longa vigência do Estado Novo, numa época em que a imprensa portuguesa estava sujeita aos mecanismos de censura do regime. As primeiras páginas preservadas ajudam a observar simultaneamente aquilo que os jornais publicavam e os constrangimentos políticos em que trabalhavam. Em exemplares da época, o título apresenta-se como jornal “independente”. A palavra adquiria particular significado num sistema político em que a liberdade de imprensa estava limitada. 1950 O JORNAL DO PÓS-GUERRA O grande formato resiste À entrada da segunda metade do século XX, o DIÁRIO conserva muitos dos elementos visuais herdados das décadas anteriores. O grande formato, a organização por colunas e a forte presença de texto continuam dominantes. Mas a imprensa estava a aproximar-se de uma nova fase industrial. As máquinas tornar-se-iam cada vez mais decisivas para aumentar velocidade, circulação e capacidade produtiva. 1951 A EMPRESA E AS OFICINAS Rua da Alfândega As edições desta época identificam explicitamente a Empresa do Diário de Notícias, Lda. como proprietária e localizam administração e oficinas na Rua da Alfândega. A referência às oficinas é particularmente relevante. Durante grande parte da sua história, um jornal não era apenas uma redacção. Era simultaneamente uma unidade industrial. Escrevia-se num sector e fabricava-se noutro. Entre a notícia produzida pelo jornalista e o exemplar recebido pelo leitor existia uma cadeia de profissionais especializados na composição, impressão e acabamento. 1952 “O MAIS ANTIGO E DE MAIOR CIRCULAÇÃO” A consciência da longevidade Uma edição de 1952 apresenta o DIÁRIO como “o jornal mais antigo e de maior circulação na Madeira”. A publicação tinha então 76 anos. A longevidade começava já a fazer parte da própria identidade comunicada aos leitores. Hoje, vista à distância dos 150 anos, a frase constitui também um sinal da dimensão que o jornal atingira no panorama regional.

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12 ||| ESPECIAL 150 ANOS l DIÁRIO 1960 1 DE OUTUBRO Horácio Bento de Gouveia entra na redacção Horácio Bento de Gouveia, uma das figuras relevantes da literatura madeirense, passa a integrar a redacção do DIÁRIO. A ligação reforça uma tradição antiga do jornal: a proximidade entre imprensa, literatura e produção cultural. Durante boa parte do século XX, as fronteiras entre jornalista, escritor e intelectual eram frequentemente menos rígidas do que actualmente. 1961 NOVA MÁQUINA DE IMPRESSÃO O coração mecânico do DIÁRIO O arquivo fotográfico conserva imagens explicitamente identificadas como pertencendo à nova máquina de impressão de 1961. As fotografias mostram equipamentos de impressão rotativa e tipógrafos no trabalho de composição das edições. É um dos melhores testemunhos visuais da história industrial do DIÁRIO. O jornal era ainda composto através de processos que dependiam do trabalho físico e especializado de numerosos profissionais, mas a mecanização permitia imprimir mais rapidamente e responder às necessidades de uma publicação diária. 1961 O JORNAL COMO FÁBRICA Antes do computador havia chumbo Nas oficinas, a produção de uma página tinha uma dimensão material hoje difícil de imaginar. As linhas não eram blocos virtuais que podiam ser arrastados num ecrã. Texto, títulos e espaços tinham existência física. Alterar uma página significava mexer no próprio material que a constituía. Daí a expressão “tempo do chumbo”, que viria a simbolizar uma época inteira da imprensa. Esse mundo sobreviveria no DIÁRIO até 1986. ABRIL DE 1974 A REVOLUÇÃO CHEGA TAMBÉM À IMPRENSA Termina a era Alberto de Araújo. Depois de mais de quatro décadas à frente do jornal, Alberto de Araújo deixa a direcção. Armindo Abreu assume interinamente. A mudança ocorre quando o 25 de Abril põe fim ao Estado Novo e abre um novo ciclo de liberdade de imprensa. Para o DIÁRIO, como para toda a imprensa portuguesa, desaparecia o enquadramento censório que marcara grande parte do século XX. Começava outro jornalismo. 1974 8 DE JUNHO Paquete de Oliveira na direcção José Manuel Paquete de Oliveira é nomeado director do DIÁRIO, ficando Armindo Abreu como director-- adjunto. A nomeação acontece num período de enorme instabilidade e transformação política. Portugal procurava construir um regime democrático e a Madeira iniciava o processo que conduziria à Autonomia. O jornal encontrava-se, mais uma vez, no centro de acontecimentos que alterariam profundamente a sociedade que servia. 1976 A AUTONOMIA NAS PÁGINAS Um novo sistema político A Madeira cria as instituições da Autonomia político-administrativa. As edições do DIÁRIO de 1976 transformam-se hoje em documentação primária desse processo: eleições, instalação dos novos órgãos regionais, debates políticos e criação de uma nova arquitectura institucional. O jornal que acompanhara a Madeira administrada a partir de Lisboa passava agora a acompanhar diariamente um poder político regional próprio. 11 DE OUTUBRO O primeiro século O DIÁRIO completa 100 anos. Para assinalar o centenário é publicada uma edição especial com 36 páginas. Sílvio Leonel Ferreira Silva exerce então funções de director interino. A data tem uma enorme carga simbólica. O jornal fundado durante a Monarquia celebra o seu primeiro século numa democracia acabada de nascer e numa Região que começava a viver a Autonomia. 1876 e 1976 eram já duas Madeiras profundamente diferentes. O jornal tinha atravessado ambas. 1981-1989 SÍLVIO LEONEL FERREIRA SILVA Direcção numa década de modernização Sílvio Leonel Ferreira Silva, que em 1976 exercera interinamente a direcção, assume posteriormente a direcção efectiva durante grande parte da década de 1980. É precisamente neste período que se prepara uma das maiores transformações tecnológicas do DIÁRIO. A imprensa começava a deixar para trás processos industriais com mais de um século. 1986 3 DE JULHO O dia em que acabou o chumbo É uma das datas fundamentais dos 150 anos. A 3 de Julho de 1986, o DIÁRIO abandona a composição e impressão mecânica a quente e adopta o sistema offset. Termina o chamado ‘tempo do chumbo’. Mas a alteração não fica pelas máquinas. O jornal muda de dimensão, adopta o formato tablóide, reorganiza a paginação e altera novamente o desenho do título. A transformação exige ainda reconversão das oficinas e adaptação profissional dos trabalhadores. Não era simplesmente comprar uma máquina nova. Era aprender outra forma de fabricar um jornal. 1986 DO GRANDE FORMATO AO TABLÓIDE Uma mudança que o leitor podia sentir nas mãos Durante décadas, a evolução gráfica do DIÁRIO ocorrera dentro de formatos relativamente tradicionais. Em 1986, a alteração passa a ser imediatamente perceptível para qualquer leitor. O jornal torna-se fisicamente mais pequeno. O tablóide facilita o manuseamento e permite uma paginação visualmente diferente, com hierarquias mais fortes entre títulos, fotografias e texto. A transformação física traduzia uma mudança industrial e editorial. O DIÁRIO do chumbo dava lugar ao DIÁRIO do offset. UMA RECONVERSÃO HUMANA As máquinas mudaram. As profissões também A adopção do offset obrigou a mudanças que ultrapassaram a tecnologia. Profissionais habituados durante décadas aos processos tipográficos tradicionais tiveram de adaptar conhecimentos, rotinas e funções. A modernização implicou experiências, formação e aquilo que o próprio jornal viria a descrever como reconversões “técnico-humanas”. Cada revolução tecnológica tem máquinas novas. Mas tem também pessoas obrigadas a reaprender o seu trabalho. UMA NOVA ORGANIZAÇÃO José Bettencourt da Câmara director-geral No quadro da reorganização empresarial é criada a função de director-geral, assumida por José Bettencourt da Câmara. A função abrangia responsabilidades de gestão e coordenação geral, distinguindo-se nesta fase da direcção editorial. A empresa procurava adaptar não apenas as máquinas, mas também a sua organização às exigências de uma imprensa cada vez mais complexa. 1989 9 DE JANEIRO Jorge Figueira da Silva assume a direcção Jorge Figueira da Silva chega à direcção editorial num DIÁRIO que acabara de passar por uma transformação tecnológica profunda. O jornal tinha agora outras condições de impressão e paginação. A década de 1990 levaria essa modernização ainda mais longe, sobretudo na linguagem visual. 1991 ‘MATUTINO INDEPENDENTE’ Uma identidade no cabeçalho Uma edição de Março de 1991 apresenta claramente no cabeçalho a definição “DIÁRIO MATUTINO INDEPENDENTE”. As palavras utilizadas para caracterizar um jornal são também parte da sua história. “Matutino” identificava ainda um produto associado a um momento específico do dia. Três décadas depois, a Internet destruiria praticamente essa limitação temporal: o DIÁRIO passaria a publicar a qualquer hora. 1993 7 DE JULHO Preparar o jornal para o século XXI Sete anos depois da introdução do offset, o DIÁRIO apresenta a modernização tecnológica de 1986 como o ponto de partida para uma nova transformação.

DIÁRIO l ESPECIAL 150 ANOS ||| 13 Desta vez, a mudança seria sobretudo gráfica e editorial. O objectivo era tornar o jornal mais moderno, visual e acessível. A página começava definitivamente a deixar de ser apenas um espaço onde cabia texto. Passava a ser desenhada para orientar o olhar. 9 DE JULHO Mario García e uma nova imagem No Reid’s Hotel é apresentada publicamente a nova imagem do DIÁRIO, concebida com a colaboração do designer Mario García. É distribuída uma edição demonstrativa que antecipa o jornal que os leitores encontrariam no dia seguinte. A reforma procura preparar um título com mais de um século para uma nova cultura visual da imprensa. 10 DE JULHO Mais cor, fotografia e hierarquia Chega aos leitores a primeira edição regular com o novo grafismo. A cor ganha maior expressão. A fotografia recebe mais protagonismo. Os títulos, espaços e diferentes elementos são reorganizados para facilitar a leitura. O próprio DIÁRIO resume as novidades na valorização da cor e de um melhor grafismo. A tecnologia libertava a página de muitas das restrições herdadas do velho processo industrial. O jornal podia finalmente explorar plenamente a imagem. “MUDA A IMAGEM, MANTÉM-SE O CONTEÚDO” Uma frase para explicar 150 anos A renovação gráfica é apresentada através de uma ideia que ultrapassa o momento de 1993: “Muda a imagem, mantém-se o conteúdo.” A formulação pode ser lida, em 2026, como uma síntese de século e meio. O DIÁRIO mudou repetidamente de dimensão, grafismo, tecnologia e suporte. A função jornalística manteve-se como elemento de continuidade. PARA VER: frase original reproduzida sobre uma sequência de capas de diferentes décadas. 1994 4 DE JANEIRO Bettencourt da Câmara na direcção editorial José Bettencourt da Câmara sucede a Jorge Figueira da Silva na direcção editorial. Depois de assumir funções de direcção-geral na transformação empresarial de 1986, passa agora a liderar editorialmente o jornal. É uma fase em que a informatização se torna progressivamente inseparável do trabalho das redacções. 1995 UMA HEMEROTECA DA ERA CONTEMPORÂNEA As edições aproximam-se do digital A actual hemeroteca electrónica permite consultar de forma continuada edições pelo menos desde o início de 1995. Embora muitas dessas páginas tenham nascido ainda para o papel, pertencem já a uma era em que a produção informática se tornava parte central do jornal. Começava a construir-se, mesmo sem ser ainda evidente para todos, o caminho que permitiria transformar décadas de papel em arquivo electrónico. 1996 PRODUÇÃO E IMPRESSÃO A Grafimadeira nos acabamentos Uma edição de Setembro de 1996 identifica “Produção: DIÁRIO de Notícias” e “Impressão e Acabamentos: Grafimadeira”. A indicação revela uma cadeia produtiva diferente daquela das antigas oficinas em que grande parte do processo se concentrava no próprio jornal. Produzir conteúdo, preparar páginas, imprimir e efectuar acabamentos podiam agora corresponder a operações distintas. O jornal industrial tornava-se progressivamente uma cadeia tecnológica especializada. 1997-1998 PAULO DE SOUSA NEVES Mudança na direcção Paulo de Sousa Neves dirige o DIÁRIO neste período, estando documentalmente confirmada a sua presença no cargo entre Dezembro de 1997 e Agosto de 1998. José Bettencourt da Câmara regressaria posteriormente à direcção. Mas outra mudança, incomparavelmente maior, aproximava-se. A imprensa mundial preparava-se para entrar definitivamente na Internet. 1999 11 DE OUTUBRO Nasce o dnoticias.pt No dia em que completa 123 anos, o DIÁRIO entra numa nova era. É criado o dnoticias.pt. Pela primeira vez, o jornal deixa de depender exclusivamente do suporte físico para chegar ao público. A mudança é especialmente relevante numa Região insular. Até então, um madeirense residente no estrangeiro dependia da circulação física, de contactos pessoais ou de outros meios para ter acesso ao jornal regional. A Internet reduz essa distância praticamente a zero. O DIÁRIO podia agora chegar em segundos onde o papel demorava horas ou dias. Mais importante ainda: começava a desaparecer a ideia de que a notícia teria obrigatoriamente de esperar pelo jornal da manhã seguinte. DO FECHO DIÁRIO À ACTUALIZAÇÃO O relógio do jornal começa a mudar Durante 123 anos, o produto central do DIÁRIO obedecera a um ciclo simples. A redacção recolhia notícias. A edição era fechada. As páginas seguiam para impressão. O jornal era distribuído. A Internet introduziu outro relógio. Uma notícia podia ser publicada antes do fecho do papel. Podia ser corrigida, ampliada ou substituída. Começava lentamente a passagem de uma cultura de edição para uma cultura de actualização. Esse processo transformaria profundamente o jornalismo nas décadas seguintes. 2002 26 DE ABRIL Nova mudança gráfica O DIÁRIO entra no novo século com outra alteração da apresentação gráfica. A 26 de Abril de 2002 é concretizada uma nova mudança de imagem. Nesta altura, grafismo e tecnologia já são indissociáveis. A paginação electrónica, o tratamento digital de fotografias e a utilização crescente de ferramentas informáticas permitem alterar a página com uma rapidez que seria inimaginável no tempo do chumbo. O jornal continua a ser impresso. Mas antes de chegar ao papel já existe integralmente em ambiente digital. 2005 DIGITALIZAR 129 ANOS O passado entra no computador Em 2005 é iniciado o processo de digitalização integral da colecção histórica de jornais preservada pelo Arquivo e Biblioteca da Madeira. O significado é enorme. Edições que existiam essencialmente enquanto objectos físicos passam a poder ser preservadas e consultadas digitalmente. A tecnologia que estava a transformar o futuro da imprensa começava também a recuperar o seu passado. Cada página digitalizada converte-se num fragmento pesquisável da memória da Madeira. 2005 OUTUBRO Luís Calisto assume a direcção Luís Calisto assume a direcção do DIÁRIO. É já uma liderança exercida numa época em que o jornal tem de pensar simultaneamente o produto impresso e a presença electrónica. A Internet deixara de ser apenas uma experiência tecnológica e começava a transformar-se num elemento permanente da actividade jornalística. 2010 RECONHECIMENTO EUROPEU O design do DIÁRIO premiado O DIÁRIO conquista o European Newspaper Award, na categoria Local Newspaper. O reconhecimento internacional confirma a importância que o desenho assumira no produto jornalístico. Depois das grandes reformas de 1986 e 1993 e das alterações posteriores, fotografia, tipografia, títulos, espaços e organização visual eram definitivamente elementos da própria narrativa.

14 ||| ESPECIAL 150 ANOS l DIÁRIO A página já não era um recipiente. Era parte da informação. 2010 MAIO Ricardo Miguel Oliveira na direcção Em Maio, Ricardo Miguel Oliveira é escolhido para director na sequência da saída de Luís Calisto. A nova direcção inicia-se precisamente quando os meios de comunicação vivem uma aceleração tecnológica particularmente intensa. As redes sociais ganham peso, os smartphones multiplicam-se e o consumo de notícias começa a deslocar-se rapidamente do computador para dispositivos móveis. 2010-2011 A EDIÇÃO IMPRESSA TORNA-SE DIGITAL O e-paper entra no modelo pago Em Dezembro de 2010, o DIÁRIO anuncia que a edição impressa na Internet passará a ser paga a partir de Fevereiro de 2011. A novidade constitui mais do que uma alteração comercial. O próprio conceito de “jornal” começava a separar-- se do papel. O leitor podia receber no ecrã a organização tradicional da edição, página após página, sem existir qualquer exemplar físico nas suas mãos. A experiência aproximava dois mundos: o velho jornal diário e a distribuição electrónica. 2017 20 DE JUNHO Preservar hoje o jornal de amanhã A Empresa Diário de Notícias e o Arquivo e Biblioteca da Madeira celebram um protocolo de cooperação. O ABM passa a receber um PDF das edições diárias impressas, podendo disponibilizá-lo em linha, enquanto o DIÁRIO recebe uma cópia digital do seu histórico. O acordo contempla também o arquivo fotográfico. A comparação com 1876 é extraordinária. No século XIX, preservar o jornal significava guardar papel. No século XXI, significa também assegurar ficheiros, formatos e dados digitais. 2018 16 DE OUTUBRO Desde 1876, consultável em casa O Arquivo e Biblioteca da Madeira anuncia a possibilidade de consultar digitalmente a colecção do DIÁRIO a partir de casa. O acervo disponibilizado desde 1876 ultrapassava então 46.700 edições. Um dos maiores arquivos da história contemporânea da Madeira tornava-se acessível sem necessidade de deslocação física. Um investigador, estudante ou simples leitor podia percorrer mais de um século de acontecimentos através do computador. A própria linha do tempo dos 150 anos torna-se possível em grande medida graças a esta transformação. NOVEMBRO 140 anos da História da Madeira em três volumes O DIÁRIO entrega ao Presidente da República a obra “140 anos de História da Madeira”. A publicação assenta em dezenas de milhares de edições que documentam acontecimentos da Região ao longo de sucessivas gerações. O projecto evidencia uma característica difícil de separar da história do jornal: contar a história do DIÁRIO é, inevitavelmente, percorrer uma parte muito significativa da história contemporânea madeirense. 2020 MARÇO Uma pandemia muda as rotinas A Covid-19 produz uma transformação abrupta no consumo de informação. A actualização deixa de ser apenas desejável. Passa a ser indispensável. Números de casos, restrições, decisões governamentais e regras sanitárias alteravam-se continuamente. O ciclo tradicional de uma edição por dia revelava-se insuficiente perante a velocidade dos acontecimentos. PARA VER: primeiras páginas dos primeiros dias da pandemia na Madeira. 16 DE MARÇO O DIÁRIO abre a edição digital O jornal disponibiliza gratuitamente a edição impressa digital. A decisão procura garantir acesso à informação num momento em que a mobilidade da população estava a ser restringida e o mundo se confrontava com uma emergência sanitária sem precedentes recentes. O e-paper, que anos antes constituíra sobretudo uma extensão comercial do jornal impresso, assumia agora uma função de serviço público. DIÁRIO DO CORONAVÍRUS Um vespertino que só precisava de um ecrã O jornal lança o DIÁRIO do Coronavírus, uma edição vespertina gratuita em formato e-paper. O projecto quebra simbolicamente uma tradição de quase século e meio. Já não havia apenas “o jornal do dia”. A rapidez da informação justificava uma nova edição horas depois. E essa edição não precisava de ser impressa. Era criada, paginada e distribuída exclusivamente por meios digitais. CERCA DE 2.000 ASSINANTES DIGITAIS O leitor também estava a mudar No final de Março, o DIÁRIO referia cerca de 2.000 assinantes digitais. O número é um indicador da alteração dos hábitos de leitura acelerada pela pandemia. O público que durante gerações associara “comprar o jornal” a receber ou adquirir um exemplar físico passava progressivamente a aceitar o acesso digital como produto jornalístico autónomo. MAIO Inovação reconhecida internacionalmente A experiência do DIÁRIO do Coronavírus recebe referências internacionais pela inovação editorial. O significado ultrapassa a distinção. Um jornal fundado em 1876 conseguira responder a uma crise do século XXI recorrendo a um produto que não existia fisicamente. A história tecnológica do DIÁRIO fechava assim um círculo curioso: a mesma organização que durante mais de um século dependera integralmente das máquinas de impressão era agora capaz de criar uma edição especial sem utilizar papel. 23 DE JULHO Nova estrutura accionista A Empresa Diário de Notícias anuncia uma nova composição accionista. A Newspar passa a deter 40%, a Verbum Media 36,8866%, a Blandy 12% e a Global Notícias 11,1134%. São também introduzidas alterações na gerência. A história empresarial do DIÁRIO volta a modificar-- se, acompanhando as profundas mudanças económicas enfrentadas pela comunicação social. 2021 11 DE OUTUBRO 145 anos: celebrar olhando para a frente O aniversário dos 145 anos é transformado num programa editorial e cívico. As iniciativas incluem uma atenção particular às alterações climáticas e envolvem acções públicas. A celebração da história deixa assim de funcionar apenas como exercício de memória. O jornal usa a própria longevidade para discutir problemas do futuro. Faltavam cinco anos para os 150. 2024 O DIÁRIO NO TELEMÓVEL A aplicação acompanha a nova leitura A aplicação móvel é actualizada numa época em que uma parte crescente da relação entre leitores e informação acontece através do telefone. A transformação é muito maior do que reduzir uma página a um ecrã. O telemóvel permite receber alertas, acompanhar notícias em permanência e consumir fotografia, vídeo e áudio no mesmo dispositivo. O jornal que durante décadas esperava que o leitor fosse à banca pode agora procurar o leitor através de uma notificação. 2025 27 DE MARÇO O DIÁRIO integra o SAPO O DIÁRIO passa a integrar o SAPO, ampliando a distribuição digital dos seus conteúdos. O marco ajuda a perceber como mudou o próprio significado da palavra “distribuição”. Durante a maior parte dos 150 anos, distribuir o DIÁRIO significava colocar exemplares em circulação física. Em 2025, distribuição significa igualmente plataformas digitais, aplicações, redes sociais, motores de pesquisa e agregadores. O destino continua a ser o leitor. Os caminhos multiplicaram-se.

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16 ||| ESPECIAL 150 ANOS l DIÁRIO 2025-2026 UMA NOVA CONFIGURAÇÃO EMPRESARIAL Newspar e Verbum Media A informação de transparência da empresa apresenta uma estrutura accionista concentrada na Newspar, com 52,02%, e na Verbum Media, com 47,98%. É mais uma transformação numa história empresarial que acompanhou diferentes épocas e diferentes modelos de comunicação. O suporte mudou radicalmente. A necessidade de assegurar uma organização sustentável para produzir jornalismo permaneceu. 2026 16 DE MAIO A rotativa ainda conta Uma avaria na rotativa provoca atraso na distribuição da edição impressa. À primeira vista, trata-se apenas de um incidente técnico. Visto na perspectiva dos 150 anos, é quase uma imagem perfeita do DIÁRIO contemporâneo. Em 2026 existem site, redes sociais, aplicação, e-- paper, fotografia digital, vídeo, áudio e distribuição por plataformas. Mas a rotativa continua a ser necessária para que milhares de folhas de papel se transformem no jornal que chega fisicamente aos leitores. A revolução digital não eliminou automaticamente o impresso. Os dois mundos coexistem. UMA REDACÇÃO, MUITOS SUPORTES O jornal já não cabe numa página O DIÁRIO chega aos 150 anos como uma organização muito diferente da que existia em 1876. A notícia pode começar por ser publicada na Internet. Pode receber actualizações durante o dia. Pode originar fotografia, vídeo ou áudio. Pode circular nas redes sociais, chegar através de uma aplicação e ser integrada depois numa edição impressa que oferece outro contexto e hierarquia. O mesmo conteúdo pode assumir várias formas. O jornal deixou de ser apenas o produto que saía uma vez por dia da rotativa. Transformou-se num sistema permanente de produção e distribuição de informação. DO CHUMBO À INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL A transformação ainda não acabou O DIÁRIO atravessou as revoluções da mecanização, do offset, da informática e da Internet. Aos 150 anos encontra uma nova mudança tecnológica em curso. Sistemas de inteligência artificial, automatização, novos motores de pesquisa e algoritmos de recomendação estão novamente a alterar a maneira como a informação é produzida, encontrada e consumida. Tal como acontecia quando o chumbo deu lugar ao offset ou quando o jornal entrou na Internet, não é possível antecipar completamente o resultado. A história mostra, porém, que a adaptação tecnológica nunca foi um episódio isolado. Foi uma constante. 11 DE OUTUBRO DE 2026 150 ANOS Três séculos, um jornal Passaram exactamente 150 anos desde a publicação do primeiro número. O DIÁRIO começou em 1876, atravessou todo o século XX e entrou pelo século XXI. Sobreviveu à mudança de regimes, à censura, às guerras, às crises políticas e económicas, às alterações de propriedade, às revoluções tecnológicas e à transformação radical dos hábitos dos leitores. Mudou de tamanho. Mudou de máquinas. Mudou de grafismo. Mudou de direcções. Mudou de instalações e processos. Passou da impressão tipográfica ao offset. Do chumbo ao computador. Do preto e branco à cor. Da página exclusivamente física à paginação electrónica. Do papel ao e-paper. Da banca à Internet. Do computador ao telemóvel. Da edição diária à informação permanente. E, no entanto, permanece reconhecível uma linha que chega directamente a 1876. Alfredo César de Oliveira quis criar um jornal vocacionado para a notícia, atento aos acontecimentos da Madeira e aos problemas dos madeirenses. Um século e meio depois, a tecnologia tornou praticamente irreconhecível o processo através do qual essa missão é cumprida. Mas não tornou irreconhecível a missão. Em 1993, quando preparava outra grande transformação, o DIÁRIO resumiu a tensão entre permanência e mudança numa frase: “Muda a imagem, mantém-se o conteúdo.” Aos 150 anos, essa ideia ganha uma dimensão maior. Porque entre a primeira página composta no Funchal em 11 de Outubro de 1876 e a informação que hoje chega instantaneamente a um telemóvel existem três séculos, sucessivas gerações de profissionais e várias revoluções tecnológicas. Existe também uma história contínua. A história de um jornal que mudou para continuar. E que, ao contar diariamente a Madeira durante 150 anos, acabou por se tornar parte da própria história que contou.

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